É com alguma surpresa e um sorriso no rosto que se cumprimentam as poucas pessoas que aparecem durante uma caminhada na Ponta do Corumbau, uma das praias mais cobiçadas do litoral de quase 90 quilômetros do município de Prado. De manhã cedo, talvez um pescador, um atleta ou até um índio apareçam.

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Foto de Fernanda Dutra

A situação é corriqueira em quase toda a faixa de areia da cidade – que inclui outras praias ainda pouco exploradas pelos cariocas, como Cumuruxatiba, do Tororão e Barra do Cahy, onde os descobridores primeiro fizeram um pit stop antes de desembarcar em Porto Seguro.

A sensação de estar (re)descobrindo o paraíso é intensificada quando, do oceano, se vê despontando o Monte Pascoal no meio da mata virgem. E alguns desafios dignos de exploradores são impostos pela região, como os quilômetros de estrada de terra e a falta de de infraestrutura de serviço (postos de gasolina ou bancos só no centro de Prado ou da vizinha Itamaraju).

Para evitar transtornos, sugerimos que você faça esta viagem do jeitinho relax baiano. Escolha uma das seis praias, da “mais agitada” (no conceito dos pradenses) à mais rústica. Não deixe de reservar um dia para visitar o arquipélago de Abrolhos, nadar com as tartarugas e conhecer os atobás. Esse aí, é de causar inveja aos descobridores.

 

Dois dias na Ponta do Corumbau equivalem a 15 de descanso. Os índios pataxós já sabiam disso quando nomearam a praia. Corumbau significa: “longe das preocupações”. Em vez do som de buzinas, ônibus e sirenes, prevalece a sinfonia do vento agitando o coqueiral. Axé, talvez, você ouça na única barraca de praia, que fica lá na ponta da faixa de areia de 15 quilômetros. O resto é tudo mar, areia e coqueiros.

Do agitado centro de Porto Seguro são 40 quilômetros de distância pela orla. Dá até para ver Caraíva, a praia mais ao sul daquele município, do outro lado do Rio Corumbau. Mas como não há rodovias fazendo a ligação direta, a distância real é de 230 quilômetros, sendo 55 deles sem asfalto. Existe um projeto de rodovia margeando o litoral até a Ponta do Corumbau, porém, há pouquíssimas almas na comunidade favoráveis à ideia.

– Quando chega o asfalto vêm junto as excursões e logo acaba a tranquilidade. Foi o que vimos nas praias vizinhas. Gostamos de Corumbau assim, não muito diferente do que era há 30 anos – explica um morador.

Quem vence a estrada de terra e as pontes de madeira tem a sensação de ter alcançado o paraíso. Dependendo do nível da maré, as paisagens são diferentes – mas igualmente deslumbrantes.

A água azul quase transparente, naquela temperatura típica do Nordeste, forma uma piscina natural. Isso porque, a cerca de 30 minutos de barco, fica a barreira de corais de Itacolomi, onde quebram as ondas. Com a maré baixa, é possível vê-los de longe no horizonte. Para observar de perto, porém, é melhor esperar a maré subir e alugar uma das embarcações que ficam ali pela praia – negociando bem, paga-se no mínimo R$ 250 para passar até cinco horas a bordo, num barco em que cabem até dez pessoas.

No mergulho, destacam-se as formações de corais e diversas espécies de peixes, muitas endêmicas. O coral-cérebro, cuja aparência é bem descrita pelo nome, é uma formação rara. O budião-azul é figurinha fácil somente nos restaurantes de Prado. A espécie está ameaçada de extinção. Mas, com sorte, é possível ver os elegantes peixes de um azul vibrante. O peixe-frade, azul pontilhado de amarelo, é outro que faz a alegria dos mergulhadores.

A maré alta também é o melhor momento para se fazer os passeios de caiaque pelo rio Corumbau, passando pelos manguezais. A Ponta do Corumbau de maré cheia termina aí. Mas ainda tem outra. Com a maré baixa, a paisagem muda e enfim se compreende o porquê do nome. Uma extensa faixa de areia avança em até dois quilômetros pelo mar, formando mais uma leva de piscinas naturais. Também é esse o momento de fazer um passeio atravessando a vila de pescadores até o ponto em que o rio se encontra com o mar.

Nas redondezas, há muitas aldeias da tribo dos Pataxós. Hotéis e agências de turismo oferecem passeios até lá, onde é possível assistir às cerimônias típicas e comprar artesanato. Mas não se iluda esperando encontrar a tribo ingênua que recebeu os portugueses – esta deve ser uma das atrações turísticas mais estruturadas da região. Muito da renda que circula nas aldeias vem do turismo.

A maior parte dos visitantes de Corumbau não se hospeda lá. Há somente seis hotéis/pousadas de pequeno porte, concorridos. Entre eles, a Fazenda São Francisco do Corumbau, em terreno que pertenceu ao deado Ulysses Guimarães. Dizem os locais que a influência dele, aliás, foi determinante na preservação da praia e dos arredores. O espaçoso terreno acentua a privacidade dos hóspedes, já garantida pelo número reduzido de dez acomodações. Luxo, lá, é o serviço pensado nos mínimos detalhes, do chá de fim de tarde no quarto à cozinha regional do chef Teco, nascido e criado na vila. Os legumes da horta combinados aos peixes e frutos do mar – todos bem frescos – geram combinações memoráveis. Teco é daqueles que nasceram com o dom. Em cinco anos trabalhando ali, deixou um posto técnico e virou o nome principal da cozinha.

Outra opção luxuosa é o Vila Naiá, que este ano ganhou da revista americana “Condé Nast Johansens” o prêmio de melhor hotel de praia da América do Sul. O projeto arquitetônico e a decoração, inspirados em vilas de pescadores, além do engajamento na preservação ambiental, garantiram o título ao hotel.

O pequeno notável Monte Pascoal

O melhor do mergulho no coral de Itacolomi é, na verdade, olhar para terra e notar o Monte Pascoal com a mesma perspectiva dos descobridores do país. É quando o pequeno monte – tem só 536 metros de altura, enquanto o morro do Corcovado tem 710 metros – se destaca no relevo.

Hoje, não é das atrações turísticas mais procuradas na região. Pouca gente sabe, inclusive, que dá para visitar o Parque Nacional Monte Pascoal e fazer uma trilha que leva ao topo. São 1.700 metros de subida íngreme. Dependendo do preparo físico, o roteiro leva em média duas horas na subida e uma na descida. É preciso contratar um guia, o que dá para fazer na hora, por R$ 40 (até dez pessoas). Mas é melhor garantir e reservar através do telefone da administração (73-3294-1870) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Quem preferir um passeio mais light pode só caminhar na base do morro. Ou subir de carro um trecho de 700 metros. A entrada custa R$ 5. O caminho mostra a vegetação da restinga conservada, manguezal e praias pluviais dos rios Caraíva e Corumbau.

Litoral de surpresas para dias de preguiça

Na comemoração dos 500 anos do descobrimento, todos os holofotes se viraram para Porto Seguro, onde os registros indicavam ter sido o lugar de desembarque da esquadra de Pedro Álvares de Cabral e da primeira missa em solo brasileiro. Historiadores conseguiram comprovar depois que o primeiro contato entre índios e portugueses se deu em Barra do Cahy, praia a 48 quilômetros ao norte do centro de Prado e 42 quilômetros ao sul de Corumbau. Ali o capitão Nicolau Coelho teria desembarcado em busca de água doce. Os locais dizem que nada mudou nestes séculos. Uma caminhada pelos quilômetros de areia revela falésias em diferentes tons, milhares de coqueiros e a foz do Rio Cahy. O rio pode ser uma alternativa sem sal para o mergulho. Fora da temporada, não há quiosques funcionando.

Barra do Cahy só não é mais distante do centro de Prado que Corumbau. Em direção à cidade, passa-se por um litoral belíssimo de paisagens variadas. Em Cumuruxatiba, a 30 quilômetros de Prado, a diferença entre as marés ao longo do dia é ainda mais intensa que em Corumbau, um fenômeno conhecido como maré rasante. Tanto que, no guia da praia, o turista recebe os horários de pico para o ano inteiro. Na baixa, os corais se sobressaem e surgem as piscinas naturais. Vila de pescadores, Cumuruxatiba hoje tem uma boa infraestrutura, com bom número de pousadas, restaurantes e lojas.

As falésias dominam a paisagem da praia do Tororão, a 18 quilômetros de Cumuruxatiba e 12 quilômetros de Prado. Abaixo, é possível encontrar areia de grande concentração monazítica, que contém o mineral de propriedades medicinais. Se o Tororão não tem o próprio rio encontrando o mar, tem outro charme: uma queda d’água doce de três metros de altura.

Seguindo em direção ao centro, um trecho entre o Tororão e a praia da Paixão permite ver do alto as falésias. Uma vista incrível, ótima para fazer belos cliques. Prado agora está a poucos quilômetros.

Com restaurantes simples, mas bons no Beco da Garrafa e na Praça da Matriz, a cidade é um bom lugar para se ficar baseado se quiser explorar os 84 quilômetros de litoral. Mesmo perto do centro, não faltam pousadas de frente para o mar. A dica é ficar na praia do Coqueiral. No dia em que bater a preguiça, é só atravessar a rua.

Fernanda Dutra viajou a convite da Bahiatursa com apoio da Fazenda São Francisco do Corumbau
Fonte: Foto de Fernanda Dutra – O Globo